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sexta-feira, 30 de julho de 2010

"Stand up":O que pode dar errado num Voo da British Airways? - Dani D. -

- Eu morei em Londres um tempo, e aí sempre que sobrava uma grana eu vinha passar o natal com a família. Era bom, eu gostava de vir passar o fim do ano aqui, Rio de Janeiro, solzão, festa em família... tudo muito animado. Em Londres eu ficava muito só. Então quando eu chegava aqui, meio que acontecia de tudo... e aí eu lembrava porque eu preferia continuar a uma distancia segura da minha família. Numa dessas voltas pra casa, Eu estava realmente ansioso pela volta, no Rio fazia um calor insuportável, eu já tava ficando sem dinheiro. As brigas típicas que acontecem todo fim de ano já tinham rolado. Então eu estava especialmente feliz em sair do calor, da família, das brigas e voltar para a tranqüilidade da minha vivência internacional. Pra variar a família toda foi se despedir de mim no aeroporto. Aquela coisa toda, aquela choradeira da minha mãe. E na minha cabeça eu só conseguia ouvir: Espera, depois que você ultrapassar aquela porta, vai ser só ar condicionado, frio e silêncio. Tudo que eu mais queria naquele momento era frio e silencio e aí tudo seria perfeito, depois que eu entrasse naquele avião da British Airways, tudo seria perfeito. Afinal o que poderia dar errado num voo da British Airways.
Ainda faltava cerca de trinta minutos para o embarque, mais eu falei que era melhor eu entrar logo, sabe como são os britânicos, né mãe? Fui o primeiro a entrar no avião. Avião limpo, comissários educados, piloto que inspira confiança. Alcancei minha confortável poltrona, que ficava no meio da fileira, sabe? Quando você vai escolher onde sentar e aí tem a poltrona “janela”, tem a poltrona “corredor” e tem a “confortável” poltrona do meio. Sentei ali comecei a repetir sem parar: ninguém senta aqui, ninguém senta aqui, ninguém senta aqui. E aí apareceu o primeiro intruso, tive que levantar pra ele sentar, classe econômica, né? Mais tudo bem, estava tudo bem, o ar condicionado estava geladinho. O avião começou a encher. Mesmo sem meu comando meu cérebro começou a repetir como se fosse um mantra: ninguém senta aqui, ninguém senta aqui, ninguém senta aqui. E aí as comissárias começaram a fazer as explicações de segurança, aí eu relaxei totalmente. Agora ninguém ia entrar mais, levantei o braço da poltrona, botei umas revistas na poltrona do lado que agora também era minha, me espalhei completamente. Feche os olhos e relaxei, já estava até sonhando, quando de dentro dos meus sonhos ouvi um: com licença. Abri os olhos e diante de mim estava o dono da poltrona corredor. Fiquei pensando: esse cara tava onde? saiu de onde? porque só veio sentar agora? Recolhi minhas coisas e achei melhor me apresentar, porque mesmo sendo um avião da British Airways, o vôo era de doze horas. Me apresentei pro cara da janela, não entendi muito bem o que ele disse, só sei que ele virou e fechou os olhos, acho que não queria conversar. Virei pro outro e me apresentei.
Ele falou o nome dele e disse que era o piloto do avião. Eu disse ahh... piloto de avião, ele não, não, piloto desse avião. Eu olhei pra ele e falei: Ah ta certo, então me leva lá na cabine. Não rolou de ir na cabine, mais a tripulação toda vinha e cumprimentava o cara. Ele disse que tinha trocado com um amigo. A única coisa que eu consegui pensar na hora foi: Tomara que esse amigo seja piloto. Mais o que podia dar errado nesse vôo? Nada! Serviram o jantar, sim jantar mesmo. Tá acostumado com barra de ceral e amendoim, né? O piloto falou um pouco da vida dele, eu contei um pouco do meu “Work Experience” e aí do alto do silencio do vôo uma mulher gritou: EU QUERO DÁ! EU QUERO DÁ! EU QUERO DÁ!
Eu não sei de onde saiu tanta gente com uniforme, mais todo mundo pulou encima da mulher. O piloto disse que ia até lá ajudar e saiu corredor adentro. A mulher calou a boca, as luzes baixaram, eu entendi que era a hora de tudo mundo dormir. Devem ter dado algum calmante pra coitada, pra ela se manter calma até chegar a Londres, assim que ela chegasse em terra firme ela poderia cumprir seu intuito. Depois de umas dez horas de vôo eu estava com sede e fui até a cozinha do avião, aquele negócio atrás da cortina, cheguei lá pedi um copo de água, a comissária de bordo sorriu pra mim e disse que ia levar até a minha poltrona. Quando eu já estava me virando pra sair, olhei pro chão e vi, eu vi, ninguém me contou não. Eu vi a mulher que queria dar toda amarrada, ela não estava algemada não, ela estava amarrada igual a uma lingüiça. Amarrada com uma corda grossa. Aquilo nêgo deve ter nessas tribos indígenas por aí, sei lá... Osama Bin Laden deve ter aquele tipo de corda, agora eu nunca ia imaginar na vida, nem na morte, que dentro de um avião da British Airways ia ter aquele tipo de corda. O fato é: quem queria dar era a mulher e eu não ia perguntar nada, porque o que eu queria era terminar o vôo bem sentado na minha poltrona. A comissária trouxe minha água e eu nem bebi. Quando o avião tocou no solo eu já tava em pé pra sair fora dali. E aí o piloto avisou que todos tinham que permanecer sentados, que antes do desembarque ia ter um procedimento policial dentro do avião. Eis que para minha surpresa e dessa vez até o cara do meu lado que passou o tempo todo dormindo levantou a cabeça. Surgiu uma fila de policiais da Scotland Yard por cada corredor do avião. De repente surgi à lingüiça gigante no alto, quer dizer a mulher toda amarrada sendo levada pelos homens de preto. Ninguém dizia nada. E aí o cara do meu lado que passou o vôo todo mudo, do nada falou:
- ...E ela só queria dar.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Peça de 1 Minuto: Dúvida.

Otávio – Merda! Logo agora esse avião some? Estava tudo sobre controle. Planejei tanto esta viagem e agora esse avião desaparece e ainda some no mesmo lugar!
(Pausa).
Telefone? Cadê o telefone? Essa Terapeuta nem pra me atender, ela disse que eu estava de alta; alguém já viu terapeuta dar alta a alguém? Quando voltar preciso arranjar outro médico.
Passaporte? Hum... não posso esquecer meu passaporte. Telefone; passaporte. Paris. Ah Paris! Estudei você nos mínimos detalhes, tenho o roteiro perfeito pra te ver, te sentir. Ah Miguel por que foi embora? Por que não esta aqui segurando minha mão?
(Pausa).
Que tristeza é esta homem! Você pode! Até a Terapeuta te deu alta e você ama Paris, planejou esta viagem com tanto amor e agora só porque deu errado com um avião você esta querendo desistir?!
(Pausa).
É deu errado com um avião. (Pausa) Ah ... se eu pudesse ir a Paris de carro, bem que poderia ter uma ponte, uma ponte daqui a Paris, uma linda ponte por cima do Atlântico. E Miguel, hein? Onde será que esta? Traidor! Planejou tudo, tudinho e faltando um mês... termina! Como assim termina? Já devia estar me traindo. Veio com aquela historinha de que sou indeciso! Indeciso! Não sou indeciso sempre sei o que quero!
(Pausa).
Ai que azia infeliz! Estou de Férias, tenho que fazer uma viagem de férias! Ah... esse avião ... que avião mais escroto!
(Pausa).
Dúvida nada tem a ver com indecisão, não sou indeciso, só estou em dúvida.
(Pausa).
Quer saber, essa dúvida só pode ser um sinal de Deus! É sim, isso não é medo não, é um sinal divino. O universo está tentando me dizer alguma coisa. Sabe de uma coisa? Eu vou é pra Mangaratiba! Vou ficar com a minha Vozinha que me entende, e que sempre me disse que um bicho que não bate as asas não pode voar!

terça-feira, 13 de julho de 2010

Mãe!

MÃE

Valéria Motta


Há quanto tempo aqui? Bom, na casa mesmo tem uns dez anos, mas neste banheiro uns dois. Sabe como é? Os filhos crescem e tomam conta do nosso espaço. (T) Hein? Se não é o contrário? Não, não. Esse contrário aí ainda vai demorar. Por que filho adolescente é assim mesmo. Ocupa espaço. Preenche com as vontades, entende? A psicóloga do colégio dizia que era tudo desejo... isso porque não era na casa dela. Acredita que nem visita recebia mais? O lavabo era irremediavelmente pros desejos dele. Hooooras lá dentro. Bom, pelo menos o garoto saía calminho, o marido não reclamava, a irmã não chorava e a empregada não pedia mais as contas. A vida da gente, hoje em dia, é assim. Melhor não perturbar... só a minha pessoa, claro. Foi por conta disto que dei um basta, tipo socorro mamãe surtou. Pois é... me dei o direito de bater a porta como eles fazem e me trancar aqui. Só que ninguém nunca imaginou que os minutos virariam horas que virariam dias... anos. Agora é a coitada da Justa é que sabe da casa. Só fico escutando: Justa cadê isso, cadê aquilo. Hã? A família? Reclamou no começo, mas depois se acostumou. Normal como dizia a minha menor. Saudade deles? Sinto... claro... só que descobri que amo dormir o tempo que meu corpo pede, compreende? Porque tava demais, vou ser sincera. Me sacrifiquei anos a fio para virar móveis e utensílios, não dá! Não gosto dessa invisibilidade! Sabe quem nem vontade tinha mais? Juro. Vai cansando sabe? Você no maior sono, a cama balança, aquele troço vai se chegando, você fica meio lá meio cá... já não tem aquela agilidade toda e pronto foi... Mas tudo bem, fazia parte. Pelo menos a cama balançava de vez em quando. Agora as crianças... meio decepção, entende? A mais nova vivia mais na casa das amigas do que aqui. Não sei que tanta graça ela via em dormir na casa da Lê, da Pri e da Rê. E a mãe aqui que agüentasse esta sinfonia! Mas passa... minha avó dizia que o bom da adolescência é que passa. Eu mesmo, nem lembro direito da minha. Lembra da sua? Pois é. Todo mundo pula essa parte. Hein? Se não me arrependo de morar aqui? Imagina! Tem barulhinho de água quando fico com vontade de chorar. Tem espelho quando penso que tenho vinte anos a menos, tem até banheira, olha só. O problema é que já estou naquela fase do entala, mas para relaxar os pés dá. Difícil relaxar... assim... depois de tanto tempo sem ter com quem conversar. Hã? Já vai? Mas, o que foi? Não respondi tudo certo? Ah, sei... tem mais gente pra pesquisar. Sei como é que é... toda mãe sabe como é que é...a gente nasceu para entender tudo. (T) Tudo bem. A próxima pesquisa é quando mesmo? Hum... é trienal, entendi. Hã? Se sou feliz? Claro... tenho a minha família, meus amigos..tudo bem que ando meio afastada, mas acho que... Oi? Estou sendo sincera sim! Imagina! A minha vida é quase perfeita. Só falta uma pitada de coragem, pra abrir a porta, mas isso a gente vai levando.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Guardar e não sofrer mais

Guardar e não sofrer mais


Nunca pensei que fosse tão simples. Abrir aquela carta, ler sua letra miúda... e não chorar uma lágrima sequer. Simplesmente guardar tudo no fundo da gaveta e não sofrer mais, João. Juro que não te esqueci... seu lugar é e será sempre insubstituível. Nós dois sabemos disso. Só que me pergunto. O que fizemos para este laço nunca se romper? Dez anos e ele nunca rompeu, né João? Nem esgarçou... nada. Te disse tantas verdades, exigi promessas de amor, palavras doces. E você, João, sempre cumpriu com cada um delas... Menos a principal, claro. Desistiu de mim antes de existir qualquer coisa mais concreta. Será que é por isso que continuamos nos amando? Sem nos importarmos com quem está do nosso lado? Que egoísmo nosso, hein João? Será isso traição? Será isso outra forma de amar? Não sei... mas , agora, me faz bem ler suas palavras cheias de desejo. Leio e apenas sorrio. Dizem que quando nos lembramos muito vivamente de algo é porque o cérebro gravou no seu HD esta informação. E a informação que tenho hoje para te dar é que não importa mais o que vou fazer da minha vida. Não importa com quem vou dormir, em qual cama vou deitar e nem que corpo vou decidir amar... o fato é que a pasta “João” está gravada em alguma sinapse qualquer. Por isso, guardarei sem dor qualquer carta que receber de você. E prometo sentir delicadamente cada alento que vier dela para ser feliz.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Sapatos e vernizes

Sapatos e vernizes

Valéria Motta

Uso sapatos que refletem algum estado de espírito. Formas mais apertadas capazes de fazer o passo sangrar... sinto vergonha de prender tanta dor... e alívio quando piso livremente em sonhos flocados...espuma delicada que esparge e brinca com o plantar. Sim, dedinhos falam, calcanhar se acalma e o feixe rijo de fibras e nervos arqueia para sustentar este corpo cansado de pisar com tanta cautela. Não é fácil mudar o ponto de equilíbrio, criar este pequeno espaço na alma dos sapatos. MAs é preciso sempre seguir adiante, escutando o que o chão tem a nos dizer.. seu segredos calafetados, assoalhos espelhados refletindo todo tipo de indiscreção.
Ando no caminho das veias e dos ossoinhos minúsculos. Me esforço para incomodar cada um deles, criando atrito com o verniz, marcando espaço na impossibilidade. Exercício diário de simplesmente ceder. Tudo de uma forma ou de outra se amolda... Para isso, arranco o canto das unhas com pinça para manter o rosto plácido e as mãos em paz com o verniz alheio... esta casquinha de brilho tolo.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Menos um

Valéria Motta


Coleciono noites, sapatos e pontas de cigarro. Escrevo com elas caminhos de cinza e gozo. E termino auroras em andaimes bêbados. É preciso manter o equilíbrio quando tudo gira em volta. Sopro e rodopio... beijos guardados e guardanapos de papel. Sigo à procura daquela curva que derrapa cada vez que chove no céu da boca e mastigo o embaraço do encontro sinuoso. Desviar sempre foi meu forte, falar nem tanto. O silêncio me pontua, mas é preciso provocar para que tudo se mantenha em algum lugar. Lugar que empalidece como sangue que se esvai do rosto. Lugar que não deixou de existir abruptamente.
Em tardes inchadas pelo mormaço desta voz que ainda ecoa, tropeço em calçados virados, pequenos obstáculos cotidianos. E lembro, por instantes, que não soletrei todas as silábas... comi o tempo antes que me devorasse. Instinto de preservação, talvez. Depois, mergulho a dor em bacias de gelo, respiro fundo, encadeio palavras de amor num ritmo sincopado e busco filetes de prazer perdidos em alguma gaveta. Encaro a noite de frente e acordo numa cama moldada pelo corpo que já fui. Solidão em reticências... menos um.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

pensamentos

pensamentos

por Valéria Motta

Meu papéis viraram ninhos, flocos brancos babados de coriza e cansaço. É tarde e não me convenço disso... Mas insito, com coluna empilhada, bunda enformada e olho vermelho. Sinto o limite do físico e odeio isso. O sono desregula, corpo desenforma... incrível como é chato. Incrível como é rápido. De uma hora para a outra, ele dá seu aviso prévio, uma revolução ao contrário. Uma turbulência em descompasso. E não adianta reclamar, porque ninguém dá ouvidos. Segue maturando sei lá o quê ( como se fosse possível ainda, maturar...) Parece rir , ao me ver brigando com minhas dobras , reclamando do barulho dos meus ossos, sinfonia de articulações que sempre acabam num nó cego. E a vista embaralha porque não lhe resta outra alternativa. E assim sigo com uma lista de paliativos. Viver agora é assim, com paliativos. E ainda tem o desconforto das descobertas sutis. Os dedos que sempre descobrem um novo pelo. Daqueles duros e imperativos, que te obrigam a apertar o olho e pegar em armas. Sim, envelhecer é ter pelos indesejáveis... pentelhos brancos, flancos generosos e desejos aguados. O fogo vai para a oralidade, quando o corpo pede descanso. E nisso não vejo vantagem. Sempre fui dos calores, dos espelhos suados. Mas a busca do encaixe cansa, melhor facilitar e guardar energia. Sem grandes extravagâncias. Nem muito sal, nem muito doce, a experiência pede temperança. Não aguento, juro. Esse amornar contemplativo, essa calma na boca nunca me serviu. Quero serpente sibilando e traduzindo no corpo, minhas loucuras vividas. Quero compasso marcado e não acordes dissonantes. Não quero nada que me faça pensar...
OI, FUTURO

Porque ele fez isso comigo, cafajeste... Me dar o fora assim, com a maior calma do mundo. Nem esperou a gente assistir a peça. Que que eu faço com o ingresso agora. A gente ia casar... eu achava. Agora to aqui sozinha, com a maquiagem toda borrada. Pelo menos nesse salão não tem ninguém pra olhar pra mim. Só essas fotos, desenhos... e essa mulher que não para de falar. Parece eu, pensando, a cabeça não para. Essa noiva, devia ser eu. O rosto explodindo de felicidade. Agora, to toda amassada... Igual a essa outra aí. To angustiada, toda amarrada, em laços azuis, da cor da minha tristeza. Dividida em pedaços, toda desmontada. Será que alguém consegue me juntar, fazer-me inteira de novo... Estou nua. Frágil. Indefesa. Será que alguém me vê, alguém me quer... Ta tudo vermelho... Fora de foco. Essas mensagens... Amor, ódio, tesão. Saudades... Muita raiva. To molhada. Mas pra quem... Não tem ninguém aqui, só eu. E esses sons, cores... sensações. Me vejo refletida, múltipla. Pra quê tantos eus. Pra quem essas fotos, essas imagens, vídeos... só pra ampliar minha cara manchada de rimel. Será que por esse caminho eu chego ao céu... Que falo... me sinto penetrada, perfurada por este pau frio, cortante, gelado. Nem a poesia me salva. Pássaros, pedra, chuva... nada me atinge. Não sinto nada. Sou uma cópia mal-feita de mim mesma. Mas quem sabe não é uma forma de recomeçar... Achar a menina que fui e que se perdeu de mim tantos anos atrás. Minha inocência de volta, será possível... Olhar pra dentro de mim. Talvez seja uma saída. Ou ao menos um novo começo.

sábado, 22 de agosto de 2009

CODA - Monólogo de Fabio Gradel

- Mia bambina... Não sei bem como ou por onde começar, mas não tenho muita escolha. Então é melhor andar logo com isso. Não me leve a mal, mas como você já deve ter percebido, não tenho tempo a perder.

Me desculpe por sair assim da sua vida, ‘presto com fuoco’. Culpa das circunstâncias. Espero que entenda e me perdoe. Se bem que, lembra? Eu te dei alguns sinais. Mas você nunca me levou a sério... Vai ver que é porque rio de tudo. ... Até nessas horas.

Eu disse que ia sumir. Você achou que era piada ou brincadeira de mau gosto. Agora acredita em mim? Pra ser sincero, eu mesmo não tinha certeza, apesar dessa ‘coisa’ aqui dentro me dizendo que eu não ia demorar. Certeza é tudo que me resta. E, delas, nada me alegra mais neste momento do que saber que você não está do meu lado.

É engraçado como, de um momento pro outro, tudo pode mudar. O que parecia ser importante não vale mais nada, e vice-versa. Já teve essa sensação? Pra mim, a crise econômica não tem mais nenhuma importância. Tanto faz quem ganhou o jogo ontem, ou se o Flamengo vai ser campeão, dá pra acreditar? Terceiro mandato do Lula, aquecimento global, whatever... O que será, será. Importam-me agora outras coisas.

Senti um tremor agora, percorrendo meu corpo. Passou.

Não me importa o que virá. Mas, sim, o que já foi. E o que ainda é. O telefonema que ainda ecoa em nossos ouvidos. A piada já contada, mas ainda engraçada. A pasta à la carbonara que divido com a turma toda quarta-feira quando estou por aí. O pôr-do-sol no arpoador, depois de vigorosas pedaladas ao lado do Fernando, um privilégio. A gente não tem mesmo nada a provar pra ninguém, tamos no lucro.

Que som é esse, você ouviu? Parece a orquestra afinando os instrumentos, uma cacofonia que aos meus ouvidos sempre pareceu uma peça de Charles Ives. Você sempre acabava com a bagunça, dando o tom certo: lá maior. Mas aqui não tem lá, nem ré, nem dó. Só essa estranha sinfonia atonal. Mas, ainda assim, música.

Ah, a música... efêmera e eterna ao mesmo tempo! A quarta de Mahler. ‘Tudo’ de Mozart. Você estudando o violino, melodias de Bach misturadas com o burburinho da televisão. Minhas óperas, claro... E, evidente, o terceiro ato da ‘Tosca... “...O dolci baci, o languide carezze...”

Aliás, você há de convir, bem apropriado para este momento não é? Me sinto um pouco como o próprio Cavaradossi: cantando para as estrelas, a espera da execução.

Só que daqui não vejo estrela nenhuma. Só escuridão.

Me importam todas essas coisas, e muitas outras mais. Mas, principalmente, me importa você. Mas disso eu não preciso falar. Você já sabe.

Agora tudo escureceu. Foram as luzes que se apagaram, ou minha visão ficou turva? Está fazendo muito frio. Parece aquela noite em Viena, quando começou a nevar bem na hora que saíamos do ensaio final da orquestra. Você se chegou a mim, pra que eu esquentasse seu corpo. Peguei suas mãos e lhe disse brincando, “che gelida manina”... Eu e essa minha mania de citar árias de ópera! Mas era mentira, suas mãos não tavam assim tão frias.

Tem um homem do meu lado chorando muito. Queria consolá-lo, mas não sei o que dizer. Por que ele chora tanto? Estou meio confuso. Deve ser essa falta de ar que me acomete agora... Respiro, mas o ar não vem. E sem ar... nada vibra, nada acontece. Não posso mais desenhar no céu com a fumaça dos meus cubanos. E você sabe, nunca resisti a eles, principalmente acompanhado de um Nero D´Avola, melhor safra claro. Se esse é o preço a pagar por esses prazeres... é justo.

Acho que está chegando a hora. Será que você vai ouvir essa mensagem? Esse gravador vai resistir ao impacto? Não importa. Quem sabe ainda vamos rir muito disso algum dia, tomando um café em Paris. Uma outra Paris, diferente daquela aonde nem eu, nem ninguém nesse voo, iremos pousar.

Não sei quanto tempo ainda resta. Fecho os olhos e ouço a estrutura da aeronave gemer... ou é a afinação da orquestra? Estamos de novo naquela noite perfeita de inverno em Viena que nunca vai terminar. Te abraço mais uma vez. Sinto o calor de suas mãos, eternamente dentro das minhas.

É agora. Rufam os tambores! Um coro de duzentas vozes grita em uníssono. O barulho aqui dentro é quase insuportável. Preso ao assento, sinto meu corpo flutuar. Voar, morrer, deve ser assim. Va Bene...

Levanto uma batuta invisível e sorrio. Arrivederci, bambina. Minha próxima ópera vai começar.

(Dedicado a Silvio Barbato)

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

NOVO GESTO DE AMOR, TEXTO FINAL

NOVO Gesto de amor
por Valéria Motta
O TEXTO DELA NA VOZ DELE

Bastou um gesto dela para tudo incendiar. A noite virada em copos, risco na pia, cama suada, riso frouxo. Será que vai ser para valer? Só temos madrugada, aurora e o desejo ainda vibrando como corda. Tudo tão tenso, leviano... adolescente neste meu quarto que cheira a tantos prantos. Estranho como tudo é uma questão de ângulo. Daqui vejo seus peitos inchados e meu sexo ardendo. Sorrio e te como mais. Muitas vezes... com o esforço do corpo pedindo: não me abandona, mas segura minha mão e aperta mais a minha bunda. Gosto de sentir que enfio forte. Seja minha com suas unhas feitas. Sei que não posso te reter, mas preciso do escuro dos teus olhos, esses dedos que desenham minha espinha, me faz levitar. Não quero me atirar pela janela sozinho. E se você resolver me dar a mão? Rasgar meu pulso e se misturar com a minha loucura. O que faço? Sinto que seu corpo saiu anestesiado e feliz. Um ronco de felicidade ainda ressoa pelas paredes. Pranto de prazer que inundou meus olhos depois que os seus escaparam pelo meio fio. Fazia tempo que não ria desse jeito, assim... jogado no leito. Você me devorou, se divertiu como uma menina. Tão sapeca com seus bigodes instantâneos que subiam e desciam como pestanas secretas a dizer: mergulho. E foi tão intenso que posso sentir o leite escorrendo pelas pernas. Como vou te encontrar agora? Por que fujo sempre, com este misto de vergonha e liberdade? Não quero te perder, mas o rumo do meu prazer sempre foi torto. Armadilha do destino? Talvez. Só queria que hoje, a noite me fosse generosa como uma puta velha que conduz meus sapatos para àquele mesmo beco cheio de escadarias risonhas. E eu subiria calmamente os degraus, puxaria sua mão para dentro das minhas calças, deixaria a saliva escorrer pelos tacos, a porta entreabrir, os pêlos eriçarem e ser seu e somente seu mais uma vez.








GESTO DE AMOR
O TEXTO DELE NA VOZ DELA

Saio com roupa de ontem, cigarro amassado e olheiras cheias de sexo. Respiro uma lufada de ar que vem da janela deste ônibus. Sim, meu rosto está enrubescido, posso sentir o calor... calor que só sentira até meus dezessete anos. E vejo o trocador dando aquele sorrisinho indecente enquanto conta notas por entre os dedos. A vadiagem foi boa sim. Não nego o sorriso cheio de gozo e a preguiça do corpo. Meu divertimento não teve fim. Terá? Ainda é cedo para saber. Parti daquele quarto úmido como sempre parto, sem olhar para trás. Só sentindo no vão da nuca, seu ronco pesado, sua dor e seu sexo encolhido. Meu peito ainda guarda o mormaço da sua boca. Acho que queria me dizer alguma coisa, nem sei se respondi. No fundo sou tímida, mas confesso que na hora não pensei em nada. Se ia aparecer gente naquele quarto, se ele tinha namorada – todos tem em algum momento da madrugada. Nada me importava. Só o tesão e este tinha endereço certo. Beco da Glória, 35, terceiro andar. Agora, meu quadril pressiona o chão com suas dúvidas. Será que vai voltar naquele bar? Daria tudo para sentir aquele cheiro de barba azulada. Meio acre, meio mel. Lixa suave que eriçou meus poros deixando ranhuras cor da noite. Ainda posso senti-la bem aqui na clavícula. Tão delicado. E abrigo na retina, seu sexo cheio de veias saltadas a me ser oferecido no mais absoluto silêncio. Devorei ávida com a sede da flor mais pura. E vi, extasiada, cabeça caindo para trás, boca entreaberta, olhos cerrados, gozo espesso e unhas vermelho sangue cravadas no seu dorso. Defini território e chupei sua carne com a intimidade das manhãs. Será amor de verdade? Não sei, mas quero ainda o desejo riscando o chão e incendiando pernas. Só assim fico rendida para sempre. Agora, só resta achar seu rastro e segui-lo de novo.

A parede - exercício por Valeria Motta

EXERCÍCIO - A PAREDE
Valeria Motta

P. — Tem sempre gente aqui. E lugares que adoraria conhecer. Mas aqueles olhos me encaram incessantemente, como se quisessem me impregnar com seus sonhos e esperanças. Nossa como gostaria de poder descansar um pouco, apagar a luz, respirar em silêncio. Mas esses desejos que vagueiam em cores furtivas não me deixam em paz. Nunca. Dia após dia, as mesmas conversas cochichadas e as imagens incessantes desfilando em cima de mim. Confesso que me sinto uma parva. Por que só me oferecem a retina de vocês? E não o tato quente, o calor da pele. Um toque me faria tão feliz. Mas me sinto tão vazia, tão nua,mesmo quando me vestem com o sorriso e a dor do mundo. Quem dera pudesse pegar esta bicicleta aqui e rumar por qualquer infinito. Entrar em algum mundo que me dê movimento. Qualquer um. Mas não, minha condição é tão plana e imensa. Como uma folha de papel que só desenha no céu dos outros. Pois o meu, é lugar nenhum, é branco que envolve e ninguém percebe.