terça-feira, 23 de março de 2010

Vontade desconhecida

Não tenho palavras bonitas para me expressar.
Não tenho nenhum tesouro, ou se quer algo parecido, para lhe dar.
Também não sei dizer nenhuma prece
que seja um sincero voto de servidão.
Não, não é nada disso o que eu posso lhe dizer.

Só posso saber do que sinto quando um cruel pensamento me atormenta
com tua imagem, em atitudes que nunca existiram.

Por que essa invasão desmedida?
Por quê?

Qual o mistério desse desejo se nada o alimenta?
O mistério é uma fuga.
É a vontade desconhecida de esquecer-me.
Busco o desejo de partir.
E não posso.

Por isso penso irrealidades
Na vontade desconhecida de esquecer-me




sábado, 9 de janeiro de 2010

Alento en aire

Foi simples... guardar e não sofrer mais. Suór que evaporou em espiral...enlace, mãos desencarnadas. Saudade de nunca mais pisar da mesma forma. Contradança cheia de vazios... vontade de reter o que escorre do corpo... tão doce e lento, como beijo apaixonado que não cansa nunca. Alento que suspende o relógio do corpo e tudo enrijeçe...súbito.
E o corpo aumenta, voz muda de tom... tudo aquiesce como brasa esquecida. Seu ar no meio dos meus olhos, riso abafado e desejo com cheiro de licor. Calice entornado num assoalho navalhado de lembranças.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Menos um

Valéria Motta


Coleciono noites, sapatos e pontas de cigarro. Escrevo com elas caminhos de cinza e gozo. E termino auroras em andaimes bêbados. É preciso manter o equilíbrio quando tudo gira em volta. Sopro e rodopio... beijos guardados e guardanapos de papel. Sigo à procura daquela curva que derrapa cada vez que chove no céu da boca e mastigo o embaraço do encontro sinuoso. Desviar sempre foi meu forte, falar nem tanto. O silêncio me pontua, mas é preciso provocar para que tudo se mantenha em algum lugar. Lugar que empalidece como sangue que se esvai do rosto. Lugar que não deixou de existir abruptamente.
Em tardes inchadas pelo mormaço desta voz que ainda ecoa, tropeço em calçados virados, pequenos obstáculos cotidianos. E lembro, por instantes, que não soletrei todas as silábas... comi o tempo antes que me devorasse. Instinto de preservação, talvez. Depois, mergulho a dor em bacias de gelo, respiro fundo, encadeio palavras de amor num ritmo sincopado e busco filetes de prazer perdidos em alguma gaveta. Encaro a noite de frente e acordo numa cama moldada pelo corpo que já fui. Solidão em reticências... menos um.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Dancing

Dancing

valéria Motta

Colocou suas mãos magras no balcão e fez sinal para Francismar, que veio rápido com seus olhos cheios de oceano.
- Já tá indo?
- Muita mulher hoje. Estou com disposição, não.
-Mas tu é mesmo um cara esquisito, hein? Uma fila de pernas louca pra riscar o salão e o senhor desdenhando.
- Já viu a qualidade da fila?
Francismar dá uma conferida discreta e sorri de boca fechada, assentando com suas pestanas compridas.
- Realmente... o mar, hoje, não está pra peixe.
- Deixa que na quarta lanço minha rede.
- E pra quê esperar até quarta? A semana está só começando, homem.
- Vivo só disso não, Francismar. Te devo quanto?
- Só foi uma cervejinha e uma porção de tremoços.
Retira do bolso algumas notas amarfanhadas, deixa sobre o balcão e se despede.
- Pode ficar com o troco.
Desce as escadarias do dancing sem a menor pressa. Cada degrau um acorde naquela sinfonia de cheia de mistérios e solidão. O choro da sua última cliente ainda grudava na sua retina.
- Acabou com meu estoque de lenços presidente... mulheres.
E balança a cabeça como quem se pergunta com quantas entranhas se faz uma alma feminina.
- Para soltar uma informação precisa dar mil voltas... e gastar um balde de lágrimas. Na próxima, cobro adicional de insalubridade. Hormônio em excesso dá nisso.
E acende seu último cigarro enquanto a banda afina seus instrumentos, pernas se ajeitam nas meias e as mãos de Francismar inundam de breu aquele imenso assoalho de parquet.
- Não quero saber de dama nenhuma caindo no chão hoje, hein?
- Mas é segunda, Francismar.
- E daí? Salão tem ritual, dona Imaculada. Não se pode sonhar no limbo, não é mesmo?
Imaculada apenas concorda com um aceno de cabeça e cutuca as demais que repetem o gesto, com suas cintas apertando as costas e dando cintura num corpo que há muito se multiplicara.
- Esta cinta é um espetáculo, Leninha. Em uma hora a gente desce um manequim.
- E tu acha que tô com essa falta de ar aqui, por quê? Acabei de descer dois números, filha.
- Danada...
- Só espero que eles não ataquem de soltinho... com esse aperto aqui só consigo ir até o samba canção e olhe lá!
Metais afinam enchendo a casa com o suingue norte americano. Não seria uma noite fácil para ninguém. Movimento fraco, banda enrolando, Franscimar contando as mesas, mulheres na sua ilusão de começo de semana e ele com seu corpo magro, terno de linho creme e sapato de amarrar bicolor, se deixando levar para casa com suas rodelas de fumaça, seus dedos compridos e o balanço do molho de chaves.
Até que... estanca ao vê-la retirando de dentro do sutiã uma nota enrolada e pagando gentilmente ao porteiro Big Jeff –misto de segurança, porteiro, dançarino de aluguel e cantor nas horas vagas.
- Brigadinha, Jeff.
- Já disse que com a senhora não tem tempo ruim. Se tiver na lona, o big libera.
Ela apenas sorri com os olhos, ajeita a cintura na saia rodada e sobe as escadas com o frisson da juventude. Esperança na ponta dos lábios, coração aos pulos e o corpo nervoso. Gostava desta sensação de descoberta, de coxia em dia de estréia. Quantos rodopios seriam necessários para que o tempo parasse e tudo ser como o deseja manda? Só a chama nascendo do enlace e o salão abrindo seus braços de grandes janelas. No fundo, dancing só servia para este instante e nada mais. Estava com a esperança acolhida no meio dos seios, liberta e feliz. E passou leve sem nem olhar para os lados.
Mas ele notou... e suspirou longamente como quem aprisiona aquele aroma que subia as escadas e se misturava ao tabaco. Algo de rosa, cravo, e um cítrico para amenizar este amargor que sempre tivera em sua língua. Que segunda feira seria essa... há muito não sentia um cheiro tão intenso assim. E tinha medo, seria capaz de confessar depois. Era hora de negociar num único murmúrio.
- Vou pagar pra ver, mas nada de umedecer a boca com palavras levianas, Macedo. Nada, hein?
Big Jeff na malandragem de quem conhece todos os degraus, sacudiu sua imensidão e brincou.
- E aí, doutor? Não resistiu, né?
- Fazer o quê, Big Jeff?
- A sorte é que tu mora em cima. Vai ser façinho.
- Aí , é tu que tá dizendo...
E o suingue já corria solto pelo salão. Era preciso subir aos atropelos. Antes que a perdesse completamente. Tem sempre alguém na esquina da pista pronto para pegar a dama alheia. Não queira dar esta chance, mas também não faria a corte. Só queria olhá-la com quem vê um filme milhares de vezes e depois se perder no ladrilho suado do banheiro. Será que já está dançando?
Conforme balançava seus ossos magros naquele retorno inesperado, ia desvendando aquela silhueta perfeita. Era linda... seios cheios, anca larga e pernas desenhadas a bico de pena. Tinha carne no lugar certo, nem magra demais – como ele – e nem gorda como a fileira de pernas que coroavam o salão. Era uma mulher que não se poderia deixar passar em branco... ela pedia assinatura.
Quando apontou no salão, sentiu-se como na primeira vez. Garoto de dezessete anos. Cabelo gomalinado, terno emprestado, sapato vulcabrás e olhar de espanto e gozo. Mulheres dançavam lânguidas de olhos fechados, casais faziam firulas no meio do salão e ele se embebedava de Cuba libre, sentindo-se pela primeira vez homem. Incrível como sempre retornamos ao que fomos um dia... ingênuos. Mesmo tendo passado bem dos 40, prateado as têmporas, vincado o rosto e encapado os dentes... ainda assim, ele se sentiu um menino diante de uma mulher como aquela. Cheia de liberdade nos olhos e fogo no corpo. E antes mesmo de pedir mais uma cerveja para meu fiel Francismar, ela já veio ao seu encontro com sua bolsinha de bolinhas brancas.
- Perdi muita coisa da banda?
- Só um set.
- Menos mal. Quer dançar comigo?
Assim direta como criança que pede uma bala. Ficou sem ação. Francismar só iluminou seus olhos, como quem vê uma grande onda e sorriu discretamente. Assenti num monossílabo, ela sorriu e enrolou seus cabelos para o alto com as mãos. Tirou um grampo de dentro do sutiã e deixou alguns fios caírem no rosto, emoldurando o desejo dele. Achou graça.
O fox se transformou num bolero, quando o trombone deu o primeiro acorde. Sabia que era daqueles que se dançava trançando as pernas, como um gato que serpenteia o chão. Beijou a mão da dama e a conduziu suavemente para a ronda do salão. Agora era tudo ou nada.

Sempre gostei de dançar na segunda feira. É bom quando os começos tem cheiro de fim de noite. Chão espelhando passos, gotas miúdas de ilusão descendo pela coluna e um leve aspirar de sonho. Este ritual semanal riscando na alma um único recado: a vida é rodopio, vamos nos divertir. Este é meu lema, por isso corro os dancings desta cidade atrás do giro perfeito. Será que este magrelo com cara de filme noir vai conseguir rodar a manivela até o tempo parar? E sermos apenas eixo, força que brota do olho do furacão? Não parece... mas se esforça.
A banda quebra o ritmo e dobra o tempo, começamos um pião de cruzar a pista e ele me olha com tanta intensidade que quase me convence de que tudo pode valer a pena. Sinto suas mãos desencarnadas apertando meu pulso, a distância entre nossos dorsos diminuindo gradativamente. Não, não foi pra isso que vim aqui. Gosto deste limite da física, muita proximidade quebra o encanto da rufada de ar no meio dos olhos. Sim, gosto quando sinto este leve sopro entre minhas sobrancelhas. É brisa leve que refresca memórias afetivas e nos faz rir de todas as ilusões perdidas.
Voltamos na cadência de um puladinho, um pé perseguindo o outro e o malemolejo dele é bom, não nego. Quase sinto os ossinhos do seu quadril roçando nas minhas fartas ancas. É bom, amacia o desejo. Será que com ele sigo pelo noite? Uma tirada de perna, um giro simples e o samba molha nossas testas, desfiando os desejos. Percebo a inveja daquela fileira de pernas brilhantes, com seus leques afoitos. Será que o cavalheiro não vai mudar de dama? Voltou aqui pra quê? Se perguntam entre uma golada e outra de coca cola com limão. Acho graça.
- Quer parar?
-Imagina. Agora é que vai começar o set que mais gosto.
- Milonga, acertei?
- Tango valse. Porque não gosto de parar unca.
E ele sorriu abaixando os olhos, como numa reverência.
- Primeiro tem que saber sofrer, depois amar
- Depois partir.
- Perfume de “ Naranja em flor... belo tango. Mas não é valse.
- Mas é minha vida. Vamos?
E a orquestra reinicia, agora com um bandoneón chorado... intenso... com seus veios de dor e saudade. Ele delicadamente subiu um pouco meu braço e me apertou num estilo bem milongueiro. Estava me convencendo o rapaz. Era bom dancarino, sim. Fazia o arranque com agilidade e cautela e me girava no pulso certo com muitos “oito cortados” e ganchos. Estava feliz, tinha que admitir. Mas não deixava transparecer. Uma dama nunca deve revelar o que seus olhos guardam, mesmo quando rodopia de olhos fechados. Se nos entregarmos, a contradança acaba... e o salão da nossa alma mofa com suas cortinas pesadas e seu chão em frangalhos. Não, esta chance ele não teria. Mesmo quando senti sua barba azulada gemendo no meu rosto...nem assim, consenti. O importante era não parar.
- Que linda...
Murmurou.
- Imagina...
Sempre falava isso quando palavras voavam pela minha cabeça... na falta, imaginar era sempre uma forma de ocupar espaço. Resposta vaga que pode dizer tudo que não queremos dizer. Imagina... o que realmente se passa dentro de mim agora, com esta música que rodopia aos borbotões , este homem tão leve como folha de seda e tão intenso como tabaco na boca. Não iria sucumbir ao ardor... juro.
Mas sucumbi.... sozinha no banheiro do dancing. Senti seu olhar desenhando minha coluna quando pedi licença para ir ao toalete logo que o set acabou, as pernas afoitas se descruzaram e os leques tamborilaram nas mesas. Ele deu um meio sorriso e me olhou como quem acaba de acordar.
- É rapidinho.
- Sou paciente.
E fui ajeitando a calcinha em cima da saia cinturada e as intenções expostas. O peito acelerava tanto que foi preciso molhar a nuca com água gelada antes que meus dedos se perdessem na noite mais escura que habita em mim. Súcubo com cheiro de laranja.
-Mulher não resiste a um toalete, não é não?
- Com certeza Franscimar... e essa pelo jeito, vai demorar.
- Mas a moça nem bebeu!
- Isso é o que você pensa.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

There

Noisily.
I get out .
The tidy bed.
Through the window I could feel the warm breeze
My eyes search at the blue bare walls while I listen to the emptiness of the day
I move forward
I open the drawer
Carefully
My eyes find tiny figures on the walls and
the room is immediately inundated by noises from the street.
Through the window I can see the imminent tempest.
Recklessy.
I close the drawer
I move backwards
The messy bed
I get in.
Quitely

I Belong

I belong.
To a time before the conscience.
Before the existence,
I belong.
To the story that was never told.
Now I belong to you.
You need to look at me…
I’m here
You haven’t notice me.
I’m your shame.
Believe me…
That the shame is your destiny…
I can feel you moving around me
We are breathing the same air in this very same time.
I know that sometimes I bring despair.
Still you want me.
Even when I’m ugly
You wait for me.
Even when I’m late
I was always at the side of your shadow face
I’m all the different many ways you can choose, but
I’m the only way that is going to happen.
I’m the absolute incomprehension, but
I don’t need to be understood.
Just felt.
I’m the one the pass by you everyday and you never notice.
I’m the only one.
I’m many more.
You ask for me.
I’m here now.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Fotogramas

Fotogramas
Por Valéria Motta

Frestas do cotidiano
Momentos de ilusão urbana
Refração, íris e ilusão
Imagem de caledoscópio
Cidade que por um instante torna-se vão
Vitrines opacas
sentimentos mundanos
travessia exausta
neste tempo que maltrata
saudade picotada
acordes sibilados
numa acústica de lata
nuvem que pesa, engarrafa e afunda
palavras esquecidas
na roda do meio que fica

Tempos e Movimentos Continuação

Tempos e movimentos em processo
por Valéria Motta

Continuação...

Movimento Cinco – o troco

Já abri e fechei este jornal umas mil vezes. A rejeição nos coloca na espécie dos animais ridículos. Tudo bem, faz parte.... mas é o que me resta neste cotidiano de pautas tão vazias. Acordo, pego uma vasilha de passas secas, encho a boca cheia de fome e sinto aquele azedinho escorrendo pelo maxilar. Gosto de mastigar a dor logo que acordo. E entre uma golada e outra de café frio percorro aqueles nomes todos. Qual deles me dará a chave certa? A forma como ela me deixou plantada naquele bar é mais do que um fora, é mais do que uma certeza. É nódoa, é travo, é mordida no doce que nunca comemos. Por isso devoro tantas passas num só golpe. Preciso engolir minhas escolhas. Detetive Marcondes, ou simplesmente Senhor Y? Que diferença faz quando tudo que preciso é municiar meus dias com o cotidiano dela. Só quero brincar de títere, voltar a sorrir ao marcar no relógio esses ponteiros que ainda insistem na minha sombra. Cada hora longe do meu amor é delírio deambulatório. Cheio de preces vazias e esperanças esgarçadas por palavras esquecidas. Mas não esmoreço até completar o quebra cabeças, até dizer... sim, agora, tenho controle. Sei dos seus hábitos, mulheres, traições. Sei da fragilidade, medos... sei do que já posso fazer com você. E antes de enroscar minha língua cálida na sua, quero esfregar no seu nariz afilado toda sordidez do seu caráter. Seu egoísmo, juro, vai se transformar em papel de bala pranteada... que farei questão de cuspir depois da festa. Sorvo o resto do café gélido, dobro o jornal e amanheço o dia com mais coragem.

Movimento Seis – o pacto.

Me recebeu com hiatos longos. E eu desabei como fruta madura, despejando dor e mágoa em cima daquela escrivaninha escura e cheia de anotações. Um copo d´água tirada de uma moringa – sim , tem gente que ainda usa moringa... - um lenço de linho branco esticado no ar, uma palavra de conforto. Ele sabia como corrigir cada nota da minha destoada espécie, afinal era um profissional do desespero alheio. Anotava minhas súplicas enquanto me afundava naquela poltrona de curvin verde musgo. Cada lembrança me esquentava a nuca. Agora sei como confessar é doloroso. Contei todos os detalhes, não escondi nada. Primeiro encontro, beijo roubado na biblioteca, trepadas na minha casa, telefonemas insones. Enumerei registros, abusos, risos e alegrias. Não podia voltar atrás. Não depois de revelar para aquele homem de faces encovadas o amor mais lindo que já tive em minhas mãos. Amor de cor nanquim, que mancha a folha branca, embebeda a caligrafia e torna o bem querer errante. Afundei mais até não sentir meus saltos tocar o chão. Por um instante quis desistir, escorrer pelo carpete cinza rato e sumir em qualquer beco por aí. Mas ele definitivamente não tinha pressa. Me ofereceu outro lenço de linho branco – devia ter uma coleção dentro daquele paletó - e esperou meu peito cessar, o olho ficar no lugar e braços se aquietarem no corpo. Por fim , deu um leve sorriso, subiu persianas empoeiradas, estendeu sua mão descarnada e ofereceu seu cartão , selando nosso pacto. Estava dada a largada. Era hora de mudar de paisagem e flanar com o gozo da futura vingança nos olhos.

Movimento Sete – a armadilha

Na vitrine, palavras penduradas. Folhas espalhadas, cheiro de papel e tinta. Ela com seu olhar de mar profundo, perdia seus dedos por entre os cabelos displicentemente e sequer percebia o quanto me aproximava. Sorrateira, fui quase um sopro no seu ouvido.

- Tão linda...

Ela se assustou, olhou ao redor, mas não me viu. Mergulhara meus óculos gigantes dentro da bolsa cheia de compartimentos. Para seduzir é preciso o saber feminino. Qual momento certo para disparar a intimidade casual. Sim, nós mulheres, temos esta liga preciosa dentro de nós. Basta um incidente, uma compaixão e pronto, o sofrimento já está misturado. E neste repertório, sou boa. Conheço todas as deixas e jamais deixo mulher minha terminar a frase. É um segredo, confesso. Espiei por debaixo das lentes, o momento certo da corte. Poderia me adiantar, forçar alguma situação, mas nada como pedir para o destino ser gentil com você. E assim, segui de mãos dadas com a minha natureza e esperei em silêncio que uma corrente de ar a conduzisse para dentro daquela livraria. Sorri quando a folha pendurada no varal das ilusões voou em círculos até cair bem na sua frente. Aí sim, ela poderia me ver e perguntar.

- É seu?

A pauta já tinha sua primeira nota, e o tom sabia de cor. Um sorriso, agradecimentos, um chá de rosas, troca de inconfidências, horas que passam aos galopes. E no começo da noite, minha mão na cintura dela se encarregaria de fazer o resto. Hoje durmo feliz, com pêlos eriçados, boca suada e peito inchado. Mais uma que se perde como veia azulada na pele alva.

domingo, 6 de setembro de 2009

Teclando solto: saber do outro

Talvez falte um pouco de sensibilidade. O mundo de cada um já não é tão microscópio. Hiperexposição de tudo: gostos, uma ida ao cinema... Olhares observam uns aos outros. Há interesse, intensidade, desdém.

A atenção em coisas tolas, em conversas soltas, em pessoas rasas, preenchem o tempo. O mundo parece consumido na mediocridade, na quantidade, na rapidez funcional do ser.

Objetivos pensados, às vezes rabiscados em um papel, não encontram lugar nos minutos do dia.

O imediato se converte em egoísmo. A relação entre as pessoas se torna um mercado de trocas.

Mas não se tem ideia do quanto uma palavra pode influenciar, magoar, alegrar, uma outra pessoa.

São limites sensíveis, explorados, superficializados, nos formatos de relacionamento de hoje.

Talvez falte um pouco de sensibilidade para definir os limites do "saber do outro".

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Construindo Personagem 2: O Chefe

Boris Krausser trabalha há mais de vinte anos no mesmo instituto de pesquisa. Já passou por várias chefias e coordenações, quase sempre em cargos de liderança. Seu temperamento estável, seu domínio da oratória, sua rapidez de raciocínio, escondem muitas vezes a sua falta de conhecimento e ignorância em vários assuntos. Consegue, com muito êxito, motivar sua equipe, seus colegas, para o trabalho. É, pois então, caristmático.
Odeia Sara Blota. Ela significa muito daquilo que ele queria e não pode ser. Porém, a quer sempre por perto, para saber de suas atitudes, seus passos, saber com quem fala, com quem anda, saber de tudo da vida dela. É, sem dúvida, sua melhor funcionária.
Quando descobriu que Sara tinha um diário, quase enloqueceu de vez. Pensou que não ia controlar a sua reação na frente de todos. Ela falou sobre isso com tanta naturalidade numa bate-papo de corredor.
Não podia ser! Ela, assim, de repente, escrevendo sobre a vida? Escrevendo sobre o que lhe vem a cabeça? Não pode ser!
Boris deseja ser poeta, ser comparado a Fernando Pessoa. Mas não consegue escrever nada, construir uma mísera frase. Não consegue definitivamente criar.
Seu poder de oratória se limita a falar do que já escrito, do já falado. Sara com um diário? E ele sem escrever uma mísera frase...Que mundo injusto!
Estava arrasado, corroído. Nada importam seus títulos, seu cargo, suas conquistas...Sara sempre o supera, está passos a sua frente.
Isso o atormenta, o destrói por dentro. E assim, em sua invejosa fragilidade, que os seus segredos e desejos irão se revelar nessa pequena história.